Uma investigação em andamento no Reino Unido revelou um caso envolvendo mais de 40 pacientes que teriam sido submetidos a tratamentos de quimioterapia desnecessários após diagnósticos incorretos de câncer.
Entre os casos está o de Becky Jones, atualmente com 34 anos, que passou 11 anos recebendo o quimioterápico temozolomida (TMZ) depois de ser diagnosticada com um tumor cerebral em estágio terminal.
O diagnóstico de glioblastoma grau 4 foi atribuído ao oncologista Ian Brown, que trabalhava no University Hospitals Coventry and Warwickshire (UHCW) NHS Trust, instituição onde os diagnósticos incorretos e os tratamentos prolongados passaram a ser investigados.
“Nunca tive um tumor cerebral. Fui diagnosticada erroneamente e passei por todo esse tratamento durante grande parte da minha vida adulta, sem motivo. Ele [Brown] basicamente destruiu minha vida”, disse Becky à BBC.
Na época, Becky chegou a questionar por que diversos exames de imagem não pareciam mostrar o tumor. Segundo o relato da paciente, o médico afirmou que a lesão não era visível a olho nu.
A verdade só veio à tona em 2025, quando os diagnósticos realizados por Brown começaram a ser revisados. Exames independentes feitos posteriormente concluíram que Becky sofria, na realidade, de uma inflamação cerebral chamada desmielinização tumefativa, uma condição tratável com corticoides.
O tratamento prolongado com quimioterapia trouxe consequências para os pacientes envolvidos. Entre os relatos estão infertilidade, desenvolvimento de leucemia associado a 100 ciclos indevidos do medicamento e limitações permanentes na qualidade de vida.
Becky descreveu como “horrendos” os anos em que foi submetida à quimioterapia.
“Era uma náusea constante, dores no estômago, úlceras na boca, cansaço no dia a dia. Era horrível! Antes do tratamento, eu frequentava a academia o tempo todo, corria, e eu e Pete [parceiro de Becky] costumávamos sair para comer fora o tempo todo, o que obviamente depois eu não podia mais fazer”, acrescentou.
Descoberta
A quimioterapia de Becky só foi interrompida depois que ela recebeu um telefonema informando que Ian Brown havia se aposentado. Na ocasião, foi comunicado que o tratamento seria suspenso até a designação de um novo oncologista, o que, segundo o relato, nunca aconteceu.
Becky então buscou uma avaliação independente com neurocirurgiões e radiologistas. A análise concluiu que ela nunca havia tido câncer no cérebro. A informação foi apresentada à paciente durante uma videochamada com seus advogados e especialistas de saúde.
“Não se trata apenas do que ele [Brown] fez, mas de como permitiram que ele agisse sozinho durante tanto tempo. É quase como se ele estivesse comandando tudo sozinho e não houvesse ninguém para acompanhar o que estava fazendo”, afirmou Becky.
Diante do volume de ações judiciais e dos apontamentos do órgão regulador, o UHCW informou que reestruturou os protocolos de prescrição da temozolomida e abriu uma auditoria interna para avaliar os canais de denúncia da instituição.
O hospital declarou ainda que os pacientes afetados já foram reavaliados por novas equipes médicas e afirmou que adotará as medidas cabíveis após a publicação oficial da versão final do relatório do RCP.
“Estamos realizando uma revisão independente dos nossos processos para que funcionários possam relatar preocupações, conduzida por uma parte independente, para garantir que a equipe se sinta plenamente apoiada e confiante para levantar qualquer preocupação. O hospital analisará a íntegra da investigação do RCP quando ela for publicada e tomará outras medidas apropriadas com base em suas conclusões. Queremos tranquilizar nossa comunidade de que a segurança, a experiência e o bem-estar dos pacientes continuam sendo nossas principais prioridades”, disse um porta-voz.
Fonte: Ag. Brasil

























