Propinão Colossal: a cortina de fumaça da Apex esconde a investigação da PF que pode derrubar a política capixaba de direita à esquerda

A política tem a capacidade de criar narrativas que rapidamente ocupam espaço nas manchetes. Nos últimos dias, a expressão “Banco Master Capixaba” passou a ser utilizada para definir a crise enfrentada pela Apex Partners. A comparação, entretanto, não resiste a uma análise dos fatos conhecidos até o momento.

A Apex vive uma crise interna após seus próprios sócios identificarem um passivo de R$ 975 milhões durante uma análise financeira. Como consequência, o presidente e cofundador Fernando Antonio Kulnig Cinelli e o diretor financeiro Eduardo Siqueira foram afastados, enquanto uma auditoria independente foi contratada para verificar a origem das inconsistências encontradas nos balanços.

O caso ganhou repercussão política porque a empresa possui em seus quadros pessoas com vínculos familiares com agentes públicos, entre elas Pedro Chieppe Ferraço, filho do governador Ricardo Ferraço, Victor Casagrande, filho do ex-governador Renato Casagrande, e Arilton Teixeira, irmão do ex-secretário de Governo de Lorenzo Pazolini, Aridelmo Teixeira. Nenhum deles, contudo, sofreu qualquer medida restritiva dentro da companhia ou foi apontado como investigado pelas informações públicas disponíveis. O parentesco, por si só, não pode substituir prova nem servir como fundamento para responsabilização.

A comparação com o Banco Master também ignora diferenças importantes. As investigações envolvendo o banco discutem a utilização de recursos financeiros para obtenção de influência política e institucional. Na Apex, até este momento, a discussão está concentrada na administração de uma empresa privada e na apuração de possíveis irregularidades patrimoniais internas. Caso surjam elementos que indiquem qualquer relação com recursos públicos, eles deverão ser investigados com o mesmo rigor, mas essa conclusão ainda não existe nas informações oficialmente conhecidas.

Enquanto esse enredo domina parte do debate político, uma investigação muito mais ampla segue avançando de forma silenciosa.

A Operação Colosso de Areia, conduzida pela Controladoria-Geral da União, Polícia Federal e Polícia Civil do Espírito Santo, apura suspeitas de fraudes em licitações, lavagem de dinheiro e ocultação de recursos públicos destinados principalmente às áreas de saúde, obras e educação.

A investigação teve origem após a identificação de movimentações financeiras consideradas atípicas e resultou no cumprimento de mandados de busca e apreensão, além da apreensão de dinheiro em espécie, celulares, documentos e anotações.

A reportagem teve acesso a parte desse material. Em respeito ao sigilo das investigações e para não comprometer a produção de provas, seu conteúdo não pode ser divulgado neste momento. Entretanto, os documentos demonstram um grau de organização incompatível com irregularidades isoladas e reforçam a dimensão das suspeitas apuradas pelos órgãos responsáveis. Nomes em listas, funções, valores acertados e resultados de reuniões, todos registrados à mão em folhas de papel ofício apreendidas durante a operação, definem os primeiros alvos que passaram a integrar o radar das investigações envolvendo políticos, autoridades e servidores públicos. A complementação desse material está sendo apurada por meio da perícia realizada pela Polícia Federal em aparelhos telefônicos e computadores apreendidos.

As investigações apontam que empresas teriam sido utilizadas para participar de contratos públicos superiores a R$ 1 bilhão, firmados principalmente com prefeituras capixabas. A hipótese investigativa é a existência de uma estrutura voltada ao direcionamento de licitações, utilização de empresas intermediárias, sucessivas subcontratações e movimentações financeiras destinadas a ocultar o destino dos recursos públicos.

Também são investigadas possíveis atuações de intermediários políticos, agentes públicos e particulares que, segundo a linha de apuração, poderiam ter contribuído para viabilizar a execução dos contratos sob suspeita. Todas essas hipóteses ainda dependem da conclusão das investigações, da apresentação das denúncias e do julgamento pelo Poder Judiciário.

Paralelamente, a Polícia Civil continua realizando oitivas. Na última sexta-feira (7), um secretário municipal da Grande Vitória prestou depoimento sobre contratações analisadas na investigação, demonstrando que o trabalho dos policiais continua avançando.

Como funcionaria o esquema:

Pelo menos 5 empresas integrariam uma mesma rede, entre elas controladas por laranjas, teriam operado em contratos públicos mediante um sofisticado esquema de corrupção. A hipótese investigativa sustenta que agentes políticos, com e sem mandato, poderiam figurar como sócios ocultos dessas operações, recebendo parcelas dos contratos celebrados com prefeituras, que chegariam a 50% do valor total.

Também apuram um segundo modelo de atuação. Deputados que destinariam emendas parlamentares para municípios, garantindo recursos para contratações dessas empresas, poderiam receber de volta 20% dos valores posteriormente. Outra frente investigada envolve pagamentos mensais a agentes que, segundo a apuração, exerceriam influência política ou administrativa em favor da organização.

Se essas hipóteses forem confirmadas pelas provas reunidas ao longo do processo, o Espírito Santo poderá estar diante do maior esquema de corrupção já investigado em sua história. Não pela participação de um partido específico, mas pela capacidade que essa estrutura teria demonstrado de alcançar agentes públicos, políticos e servidores de diferentes correntes ideológicas desde 2017.

Essa talvez seja a característica mais preocupante da averiguação. Não existe, até aqui, um desenho que aponte para uma organização vinculada à direita ou à esquerda. A lógica investigada indica justamente o oposto: uma estrutura que buscaria cooptar pessoas em diferentes espaços de poder para reduzir riscos, neutralizar fiscalizações e dificultar o avanço de denúncias.

A ostentação atribuída a alguns investigados, com veículos de alto padrão, iates, aeronaves e até imóveis na Europa, é considerada, até o momento, incompatível com a renda declarada. As sondagens também apuram a suspeita de que parte do patrimônio possa ter sido registrada em nome de terceiros, em uma tentativa de dificultar o rastreamento da origem dos recursos e da real titularidade dos bens.

A corrupção não possui filiação partidária. Quem utiliza dinheiro público para benefício privado não atua em nome da direita, da esquerda ou do centro. Atua em favor do próprio patrimônio.

Caso as investigações confirmem as suspeitas, será a Operação Colosso de Areia, e não a crise da Apex, que poderá revelar o verdadeiro ‘‘Banco Master Capixaba.”

Fonte: Ag. Brasil