Uma análise feita por uma das maiores especialistas internacionais em partidos de esquerda reforça um cenário que já vem sendo percebido por parte do eleitorado brasileiro: Lula chega à disputa presidencial sem conseguir despertar o entusiasmo que marcou campanhas anteriores.
A cientista política Wendy Hunter, professora da Universidade do Texas e estudiosa do Partido dos Trabalhadores há décadas, avalia que o Brasil vive um ambiente de desânimo em relação ao atual presidente. Em entrevista à BBC News Brasil, ela afirmou que existe um “déficit de entusiasmo” em torno da candidatura de Lula, fenômeno que comparou ao desgaste enfrentado por Joe Biden antes de abandonar a corrida pela reeleição nos Estados Unidos.
Essa avaliação ajuda a explicar uma percepção cada vez mais presente entre os brasileiros: a de que muitas promessas de campanha são reapresentadas a cada eleição como se dependessem apenas de mais um mandato para finalmente sair do papel. O resultado é um sentimento de espera permanente por melhorias que, para muitos eleitores, nunca se concretizam de forma efetiva.
Mais um elemento destacado por Hunter é a mudança de comportamento das novas gerações. Segundo a pesquisadora, muitos jovens passaram a valorizar autonomia, empreendedorismo, liberdade econômica e formas mais flexíveis de trabalho, distanciando-se do modelo tradicional historicamente defendido pela esquerda. Em sua avaliação, diversos analistas ainda não compreenderam essa transformação cultural, que tende a aproximar parte desse eleitorado de pautas associadas à direita.
A professora também identifica um processo de envelhecimento político do PT. Para ela, a legenda deixou de ser percebida como uma força de renovação e passou a ser vista como parte do próprio establishment. Sob essa ótica, o partido perdeu parte da imagem de movimento contestador ao estreitar sua relação com as estruturas tradicionais de poder, tornando-se justamente aquilo que durante décadas dizia combater.
Na política externa, Hunter critica a aproximação de Lula com governos autoritários, como o de Nicolás Maduro, e o histórico de simpatia do PT pelo chavismo. Segundo sua análise, esse posicionamento contribui para reforçar uma imagem de atraso político perante parte do eleitorado.
A pesquisadora também observa que muitos eleitores enxergam incoerência no fato de Lula, que foi perseguido e preso durante sua trajetória política, manter relações próximas com governantes acusados internacionalmente de perseguir opositores, restringir liberdades civis e enfraquecer instituições democráticas. Essa percepção, segundo ela, amplia a resistência de segmentos que associam a defesa da democracia à proteção irrestrita das liberdades individuais.
Na mesma linha, afirma que setores ligados ao PT passaram a defender prisão e censura contra manifestações e publicações em redes sociais, para barrar o crescimento da oposição.
Hunter ainda avalia que o PT enfrenta dificuldades para construir uma sucessão política. Em sua visão, Fernando Haddad aparece como o nome mais preparado para assumir a liderança da legenda, mas ainda demonstra limitações para ampliar seu alcance eleitoral além da base tradicional do partido.
Sobre a disputa presidencial, a cientista considera improvável o surgimento de uma terceira via competitiva. Para ela, Lula mantém um eleitorado consolidado, enquanto Flávio Bolsonaro preserva uma base fiel que dificulta o crescimento de candidaturas alternativas.
Na avaliação da pesquisadora, um eventual segundo turno com ampla convergência das forças de direita tornaria a disputa mais difícil para Lula, razão pela qual o presidente procura ampliar sua interlocução com segmentos como o eleitorado religioso e incorporar temas como segurança pública ao discurso de campanha. Se essa estratégia será suficiente para recuperar o entusiasmo perdido, somente as urnas responderão.
Fonte: Ag. Brasil























