O certo virou errado: a ascensão das bets e a ruína da sociedade moderna

Filipe Antunes Rosa, casado, cristão e contador, é diretor de Formação do Instituto Mais Líderes. Em busca da verdade e amante da literatura

As bets estão investindo alto em publicidade. Dificilmente uma pessoa que tenha acesso à internet e TV não tenha visto ao menos uma propaganda delas. Essas casas de apostas, conhecidas como bets, possuem um grande poder financeiro. Dados divulgados pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) afirmam que as bets registraram receita bruta de R$ 37 bilhões em 2025.

O Banco Central divulgou recentemente que o endividamento da população alcançou números recordes de 82% das famílias. Somados a esses números preocupantes, o país ainda enfrenta taxas de juros altíssimas, inflação real alta, juros na casa de dois dígitos, aumento significativo dos impostos, descontrole das finanças do governo federal, reforma tributária e insegurança jurídica. Um cenário é desesperador. Mas o que isso tem a ver com as bets?

Parte do endividamento das famílias é provocado por perdas nessas casas de apostas, não sendo o único motivo, como listado anteriormente. Entre as famílias endividadas por causa de jogos, algumas recebem benefícios sociais do governo, ou seja, famílias de baixa renda. Esse fato provocou o debate sobre o uso de benefícios sociais em jogos de azar, o que acarretou a proibição de 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família de se cadastrarem e jogarem. Porém, essa seria a solução? Para exemplificar a dimensão do problema, temos os dados do Governo Federal que, por meio da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), derrubou e bloqueou mais de 60 mil sites e domicílios de apostas ilegais no Brasil. Ou seja, as pessoas ainda continuarão jogando em sites ilegais.

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A discussão sobre proibição e legalidade fica na esfera imediata, no raso. Precisamos atacar o cerne do problema, os vícios. O bom senso e as virtudes foram abandonados no Brasil?

Será necessário voltar à grande afirmação de Aristóteles: “A grande maioria dos homens se assemelha a escravos, preferindo uma vida comparável à dos animais”.

Para Aristóteles, a verdadeira felicidade, a eudaimonia, é o objetivo último das ações humanas. Se todas as nossas escolhas deveriam estar orientadas para esse fim, é preciso perguntar: estamos buscando aquilo que realmente nos torna melhores, o Bem, ou apenas aquilo que nos proporciona satisfação imediata, os vícios?

Diante desse cenário, podemos afirmar que abandonamos o bom senso e as virtudes. O certo virou errado e o errado ficou certo. Aqueles que abandonaram a virtude e entregaram-se ao vício, seja por ignorância do Bem, ou pior, por débil cegueira provocada pela ignorância, não perdem somente o controle das suas vidas, mas também a própria liberdade. Por isso mesmo são considerados fracos, escravos, pois não possuem temperança para resistir ao vício. Uma sociedade que deliberadamente elege o erro como guia de suas ações não escapará da escravidão.

O grande problema não é somente a dependência em jogos. Nossos problemas são mais profundos. Talvez a Ética a Nicômaco, de Aristóteles, possa nos ajudar a sair desse labirinto vicioso e encontrar o Bem, a busca pela verdadeira felicidade. Rompamos esse ciclo de queda e escravidão antes que o vício se torne o guia de nossas escolhas. Do contrário, poderemos ruir como Roma.

Fonte: Ag. Brasil