O registro da pesquisa ES-01361/2026, realizada pelo Instituto Veritá no Espírito Santo, apresenta uma divergência entre o plano amostral e o questionário aplicado aos entrevistados. O documento também deixa sem explicações relevantes o processo de seleção dos eleitores abordados por telefone celular.
O levantamento foi registrado em 5 de setembro, com 1.220 entrevistas previstas entre os dias 5 e 10. A divulgação dos resultados está autorizada a partir desta sexta-feira (11). A pesquisa, custeada com recursos próprios do instituto, tem valor declarado de R$ 93.940,00 e mede as intenções de voto para governador e senador.
Inconsistência nas faixas de renda pode distorcer a classificação e a ponderação dos entrevistados
Uma das fragilidades aparece nas faixas utilizadas para classificar a renda familiar. No plano amostral, o Veritá estabelece que 42,5% do público de referência possui renda de até dois salários mínimos. A segunda faixa reúne pessoas com rendimento de dois a cinco salários mínimos, representando 38,3%.
O questionário, entretanto, apresenta uma divisão diferente. A primeira alternativa considera somente renda abaixo de dois salários mínimos. A segunda utiliza a expressão “entre 2 e 5 salários mínimos”.

O problema ganha importância porque o próprio instituto informa que poderá utilizar a renda familiar para ponderar e calibrar os resultados. Sem uma regra clara sobre os valores limítrofes, entrevistados com a mesma renda podem ser enquadrados de forma diferente da distribuição populacional usada como referência.
A jurisprudência eleitoral considera relevante o alinhamento entre as variáveis informadas no plano amostral e as perguntas efetivamente apresentadas. A aglutinação de faixas é permitida, mas uma discrepância capaz de alterar a classificação dos entrevistados pode comprometer o processo de estratificação e ponderação.
Origem desconhecida dos números de telefone compromete a transparência da seleção dos entrevistados
Não há explicação sobre a origem dos números de telefone utilizados nas chamadas. O documento não informa se os contatos foram obtidos em banco de dados, gerados aleatoriamente ou selecionados por outro procedimento.
O instituto igualmente não detalha quantas tentativas são realizadas em cada telefone, como trata chamadas não atendidas, quais são os critérios para substituir pessoas que recusam participar e de que forma corrige a maior probabilidade de seleção de eleitores que possuem mais de uma linha celular.

Margem de erro pode estar corrompida por cálculo incompatível com o desenho da pesquisa
A metodologia declara que a participação é voluntária e espontânea. Essa característica, isoladamente, não transforma o levantamento em enquete, já que a iniciativa da ligação parte do instituto. Entretanto, a ausência de informações sobre a formação da base telefônica impede uma avaliação completa sobre possíveis efeitos de autosseleção e exclusão de eleitores menos acessíveis por celular.
A margem de erro também merece esclarecimento técnico. O Veritá informa intervalo de confiança de 95% e margem máxima aproximada de três pontos percentuais. O cálculo foi realizado com base no modelo de amostragem aleatória simples.
O desenho declarado pelo próprio instituto, contudo, envolve estratificação, seleção de municípios em múltiplos estágios, cotas demográficas e eventual aplicação de pesos. Esses elementos podem produzir um efeito de desenho diferente daquele encontrado em uma amostra aleatória simples.

Instituto não explica como será auditada a amostra de “cerca de 20%” das entrevistas
O sistema de fiscalização igualmente foi apresentado de maneira limitada. O registro informa que cerca de 20% dos questionários serão conferidos após a coleta e que todas as entrevistas ficarão gravadas em áudio.
A descrição não esclarece como esses 20% serão escolhidos, quem realizará a auditoria, quais situações provocarão a invalidação de uma resposta e como serão tratadas duplicidades ou incompatibilidades encontradas durante a verificação. A utilização da expressão “cerca de 20%” também impede conhecer previamente o percentual mínimo efetivamente submetido à conferência.
Uma falha que se soma a outra e torna o levantamento potencialmente comprometedor

A responsável pela sondagem
A Veritá vem sendo alvo recorrente de questionamentos judiciais sobre métodos apontados como capazes de favorecer resultados desalinhados da realidade, tendo inclusive pesquisas suspensas pela Justiça Eleitoral.
O espaço permanece aberto para que o instituto apresente os esclarecimentos técnicos e a documentação necessários ao pleno exercício do contraditório.
Fonte: Ag. Brasil

























