Uma notícia de fato datada de 21 de agosto de 2026 pede que órgãos de controle investiguem uma possível omissão ou inexatidão nas declarações patrimoniais apresentadas à Justiça Eleitoral pelo deputado estadual Ademir José Gomes Pereira, conhecido como Zé Preto, candidato à reeleição.
O documento é dirigido à Procuradoria Regional Eleitoral, à Superintendência Regional da Polícia Federal e à Delegacia da Receita Federal no Espírito Santo. O autor solicitou a preservação de sua identidade perante terceiros, com fundamento na Resolução n.º 174/2017 do Conselho Nacional do Ministério Público e na Lei n.º 13.608/2018.
A representação reúne informações públicas sobre os bens declarados por Zé Preto nas eleições de 2020, 2022, 2024 e 2026 e confronta esses dados com reportagens, catálogos e registros que associam o parlamentar à criação de cavalos da raça Mangalarga Marchador e ao Haras Pelicano, localizado em Guarapari.
A denúncia ressalta que essas referências públicas não comprovam que os animais, o imóvel ou a estrutura do empreendimento pertençam pessoalmente ao deputado. O objetivo declarado é obter documentos que esclareçam a titularidade dos bens e a existência de eventuais copropriedades, contratos de arrendamento ou cessões de uso.
“A divergência pode ter explicação lícita. Justamente por isso, requer-se que seja esclarecida com documentos”, afirma a notícia de fato.
Patrimônio declarado nas eleições
Segundo os dados apresentados no dossiê, Zé Preto declarou uma casa de um pavimento no bairro Condados, em Guarapari, avaliada em R$ 70 mil, na eleição municipal de 2020.
Em 2022, quando foi eleito deputado estadual, a ficha eleitoral consultada pelo denunciante não registrava patrimônio positivo. Na eleição de 2024, quando disputou a Prefeitura de Guarapari, o candidato informou R$ 150.013 em bens, valor composto exclusivamente por dois veículos, avaliados em R$ 82.513 e R$ 67.500.
Para a eleição de 2026, o patrimônio declarado chegou a R$ 382.500. A relação contém uma casa residencial avaliada em R$ 300 mil, um Fiat Argo de R$ 67.500 e uma motocicleta de R$ 15 mil.
A representação pede que sejam verificadas as entradas e saídas patrimoniais entre as eleições. Entre os pontos levantados estão o destino do veículo de R$ 82.513 declarado em 2024, a permanência ou substituição do automóvel de R$ 67.500 e a origem dos recursos empregados na aquisição da residência informada em 2026.
O documento reconhece que os valores das declarações eleitorais são nominais e autodeclarados. Por essa razão, a manutenção de um imóvel pelo custo histórico, mesmo que abaixo do preço atual de mercado, não representa isoladamente qualquer irregularidade.
Relação com o Haras Pelicano
A notícia de fato apresenta referências públicas que associam Zé Preto ao Haras Pelicano desde antes de seu ingresso na política.
Entre os registros mencionados está uma reportagem do Canal Rural sobre a primeira Copa de Marcha do Haras Pelicano, realizada em Guarapari em 2011. Um catálogo de competição de 2014 também teria registrado Ademir José Gomes Pereira, o Zé Preto, como expositor de um animal.
Outras publicações citadas tratam de eventos realizados pelo haras e apresentam Zé Preto como criador de Mangalarga Marchador. Uma reportagem publicada em dezembro de 2020 o identificou como proprietário de um haras situado em Taquara do Reino, interior de Guarapari.
Em 2022, publicações em seu perfil no Instagram mostram encontros políticos nos quais ele aparece recebendo autoridades no Haras Pelicano. Já uma reportagem de 2024 afirmou que o então candidato havia constituído patrimônio na criação de cavalos. A publicação também mencionou a suposta venda de 50% de uma égua por R$ 650 mil, informação atribuída a um colaborador da campanha.
A própria denúncia considera que essa suposta negociação precisa ser confirmada por documentos primários. Entre os elementos sugeridos estão contrato, registro de transferência, identificação do comprador, comprovante de pagamento e eventual repercussão fiscal.
Ainda em 2019, quando exercia o mandato de vereador, Zé Preto foi autor da Lei n.º 4.349/2019, que instituiu o Dia Municipal do Criador de Cavalos. Em 2021, recebeu uma homenagem na Câmara Municipal de Guarapari por sua atuação como criador de equinos. Em 2023, propôs na Assembleia Legislativa a realização de uma sessão solene em homenagem aos criadores e tratadores de cavalos. No mesmo ano, apareceu como parceiro do 12º Evento de Podologia Equina, promovido pela Associação de Ferradores do Estado e realizado no Haras Pelicano. Em 2025, participou da 34ª Exposição Estadual do Cavalo Mangalarga Marchador, em Alfredo Chaves, ocasião em que falou sobre a criação da raça e o empreendedorismo no setor.
Também foi incluída uma transcrição de sessão da Câmara Municipal de Guarapari realizada em 2025. Na ocasião, um parlamentar teria se referido ao empreendimento como o “Haras Pelicano que é dele”, durante uma manifestação sobre a realização do décimo Concurso de Marcha do haras.
Titularidade ainda precisa ser esclarecida
A representação reconhece expressamente que a divulgação do nome do Haras Pelicano em eventos, competições e reportagens não significa que todos os animais ou toda a estrutura estejam registrados em nome do político.
Os bens podem pertencer a terceiros, sociedades, familiares ou coproprietários. O imóvel também pode ser utilizado por meio de arrendamento, cessão ou outra relação contratual, sem pertencer ao parlamentar.
Nenhum imóvel rural aparece nas declarações eleitorais analisadas. Por esse motivo, o requerente pede a identificação da matrícula da área onde funciona o Haras Pelicano e a verificação de eventual propriedade, posse, arrendamento ou cessão de uso.
A documentação solicita ainda informações sobre cavalos e frações de animais que eventualmente estivessem vinculados ao deputado nas datas das eleições de 2016, 2020, 2022, 2024 e 2026.
Remuneração parlamentar cobre evolução declarada
O próprio documento apresenta um cálculo que favorece Zé Preto em relação à capacidade financeira para formar o patrimônio informado em 2026.
De acordo com a estimativa incluída na denúncia, o deputado teria recebido uma remuneração bruta máxima de aproximadamente R$ 1,49 milhão entre fevereiro de 2023 e agosto de 2026, incluindo décimos terceiros. Com descontos legais estimados em 30%, o valor líquido seria de aproximadamente R$ 1,04 milhão.
A evolução patrimonial declarada entre 2022 e 2026 foi de R$ 382.500. Portanto, a remuneração parlamentar seria suficiente para justificar integralmente a aquisição dos bens informados.
“A remuneração do mandato cobre com folga todo o patrimônio declarado em 2026, de modo que o teste não aponta acréscimo a descoberto na série declarada”, admite a representação.
A suspeita apresentada está concentrada na eventual existência de bens ou direitos não incluídos nas declarações, especialmente aqueles relacionados à atividade equestre. A denúncia não aponta enriquecimento incompatível com o salário recebido como deputado.
Até o momento, o documento apresenta pedidos de investigação e hipóteses que ainda dependem de comprovação. A notícia de fato não representa condenação, denúncia criminal oferecida pelo Ministério Público ou reconhecimento de irregularidade por qualquer autoridade.
O espaço permanece aberto para que o deputado Zé Preto responda às perguntas encaminhadas por e-mail, apresente seus esclarecimentos e exerça plenamente o direito ao contraditório.
Fonte: Ag. Brasil

























