Tenho acompanhado alguns políticos e influenciadores de direita tentando desprestigiar, diminuir e até vilipendiar a imagem de Augusto Cury, pré-candidato à Presidência da República pelo Avante. Considero esse movimento precipitado, desnecessário e politicamente perigoso.
Excluo dessa análise as críticas legítimas, os questionamentos sobre propostas e as dúvidas que qualquer liderança ou eleitor possa ter sobre Cury. Examinar o histórico, as ideias, a equipe e o programa de um candidato faz parte do processo. Ninguém precisa concordar integralmente com ele, assim como nenhum postulante ao Palácio do Planalto deve receber apoio automático.
O problema começa quando a divergência deixa a política e passa à tentativa de desqualificação pessoal. Essa reação parece nascer da percepção de que Cury poderia retirar votos de Flávio Bolsonaro no primeiro turno e, indiretamente, beneficiar Lula. Respeito essa preocupação, mas considero a análise limitada.
Augusto Cury apresenta capacidade para alcançar eleitores de diferentes correntes. Sua trajetória como psiquiatra e escritor, sua presença em diversos países e o conteúdo de suas propostas permitem uma comunicação com pessoas que não se identificam integralmente com a direita ou com a esquerda. Seu crescimento, portanto, pode resultar da atração de votos que hoje estão dispersos, indecisos ou afastados da polarização.
Os números recentes reforçam essa interpretação. Cury ganhou 1,3 milhão de seguidores em apenas dois dias. Nesse intervalo, seus conteúdos ultrapassaram 250 milhões de visualizações, enquanto seu perfil recebeu cerca de 8 milhões de visitas. Parte desse avanço ocorreu após sua participação no debate da Band, mas uma movimentação dessa dimensão dificilmente pode ser explicada apenas pela estrutura de comunicação da campanha. Existe curiosidade real em torno de seu nome.
O crescimento também passa pelas propostas que começou a apresentar. Cury defende o fim da vitaliciedade dos ministros do Supremo Tribunal Federal, com a criação de mandatos definidos para os integrantes da Corte, a implantação de clubes de empreendedorismo, mudanças na educação, a capacitação de policiais e o atendimento psicológico gratuito a crianças vítimas de abuso sexual.
O principal, porém, foi direcionar suas falas aos 35 milhões de brasileiros neurodivergentes. Essa parcela da população sentiu-se vista, talvez pela primeira vez, por alguém que não a tratou como um problema, mas demonstrou compreender o que essas pessoas pensam, sentem e desejam. Cury não falou delas, falou para elas. Esse foi o ponto de virada que, naquele momento, rompeu a lógica da polarização.
Se políticos e influenciadores resolverem queimá-lo, atribuindo-lhe intenções que ele não declarou ou tentando transformá-lo em algo que não é, poderão comprometer uma aproximação importante no segundo turno.
Hoje, o cenário mais provável dentro dessa hipótese seria uma aliança de Augusto Cury com Flávio Bolsonaro contra Lula. Uma campanha agressiva no primeiro turno criaria desconfiança entre os eleitores de Cury e tornaria qualquer apoio posterior menos natural. O próprio escritor poderia recuar, adotar uma posição tímida ou encontrar dificuldades para convencer seus seguidores a acompanhar uma composição construída depois de meses de ataques.
O eleitor costuma rejeitar agressões que considera desproporcionais. Caso identifique uma tentativa organizada de destruir uma candidatura ainda em formação, poderá desenvolver antipatia pelos responsáveis. Flávio seria atingido indiretamente, mesmo sem ter solicitado, autorizado ou reproduzido esse comportamento.
Também considero equivocado transformar todos os candidatos em inimigos. O adversário a ser derrotado pela direita no primeiro turno é Lula. Pablo Marçal, Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos e Augusto Cury disputam espaços distintos, apresentam projetos diferentes e merecem avaliações igualmente distintas.
Renan Santos, por exemplo, mantém uma política marcada por uma agressividade sem limites. Assim, dar centralidade excessiva a suas provocações apenas amplia uma candidatura que, neste momento, não possui dimensão eleitoral suficiente para justificar tanta energia. O mais racional seria deixá-lo falar e concentrar esforços no enfrentamento ao projeto demoníaco-petista.
Minha opinião também reconhece as motivações daqueles que atacam Cury. Muitos procuram proteger a candidatura de Flávio e impedir uma fragmentação que possa favorecer Lula. Essa disposição confirma o caráter combativo da direita, mas combatividade sem cálculo pode provocar o efeito contrário ao pretendido.
A direita precisa avaliar os impactos diretos e indiretos de cada movimento. Aquilo que parece uma defesa imediata de Flávio pode ampliar sua rejeição entre os moderados, afastar eleitores independentes e destruir pontes necessárias para o segundo turno.
Augusto Cury deve ser questionado, confrontado e cobrado como qualquer outro candidato. Suas propostas precisam passar pelo exame público, e suas eventuais contradições devem ser apresentadas ao eleitor. A tentativa de aniquilar sua reputação antes mesmo de conhecermos toda a extensão de seu projeto ultrapassa a crítica legítima e entra no terreno da imprudência.
A política exige firmeza, mas também cobra inteligência. Cury pode conquistar votos de Flávio Bolsonaro, assim como pode retirar eleitores de Lula, atrair indecisos e alcançar brasileiros cansados da polarização. Seu crescimento parece mais amplo do que uma simples movimentação interna da direita.
A direita tem diante de si a oportunidade de preservar o diálogo com um candidato em ascensão, respeitar seus eleitores e manter aberta uma composição futura. Destruir essa possibilidade por vaidade, ansiedade ou medo seria um erro estratégico cujas consequências poderão aparecer justamente quando cada apoio se tornar decisivo.
Fonte: Ag. Brasil
























