Politização irresponsável da crise da Apex pode ampliar prejuízos de empresas e investidores, atingindo diretamente os capixabas

Alan Fardin é jornalista, cristão e conservador, um pecador consciente de suas falhas, que não se fantasia de santo, mas busca viver segundo as virtudes ensinadas por Deus

A crise envolvendo a Apex Partners merece atenção, investigação, transparência e cobrança. O que ela não merece é ser transformada em instrumento eleitoral por quem percebeu na dificuldade de uma empresa privada uma oportunidade para produzir vídeos, alimentar redes sociais e tentar atingir adversários políticos.

A Apex não é uma empresa qualquer para o Espírito Santo. Fundada em Vitória em 2013, construiu em pouco mais de uma década uma plataforma regional de investimentos e serviços financeiros com atuação também fora do Estado. Seu modelo reúne gestão de recursos, investment banking, assessoria financeira e outras atividades relacionadas ao mercado de capitais. A própria companhia se apresenta como uma plataforma voltada ao desenvolvimento de um ecossistema financeiro regional.

Isso não concede à Apex imunidade a críticas. Pelo contrário. Quanto maior a instituição, maior deve ser a responsabilidade diante dos investidores, credores, sócios e do mercado.

Publicidade ACACCI

O problema atual é grave.

A companhia identificou internamente inconsistências financeiras, afastou o então presidente e cofundador Fernando Antonio Kulnig Cinelli e o diretor financeiro Eduardo Siqueira, contratou auditoria independente e recorreu à Justiça para obter proteção contra credores enquanto dimensiona sua situação financeira. Documentos judiciais apontam um passivo preliminar de R$ 985,6 milhões. A proteção judicial alcançou 178 empresas relacionadas à estrutura apresentada no processo.

A palavra fundamental aqui é “preliminar”.

Ainda está sendo apurado o tamanho definitivo do problema, sua origem, a responsabilidade de cada administrador e a composição das obrigações. A dívida líquida consolidada teria passado de aproximadamente R$ 413 milhões em janeiro de 2025 para R$ 975 milhões em junho de 2026. Somente no primeiro semestre deste ano, aproximadamente R$ 300 milhões em novas dívidas teriam sido contraídos.

Há operações que precisam ser profundamente esclarecidas. Entre elas estão a participação superior a 15% na CVC, a emissão de R$ 452,1 milhões em debêntures pela Rhino Securitizadora e compromissos financeiros relacionados a operações estruturadas para investidores. A queda das ações da CVC agravou a situação porque a Apex havia assumido compromissos de rentabilidade com determinados investidores.

Tudo isso exige explicações.

Também exige cuidado para não transformar suspeita em condenação.

Até agora, não existe conclusão pública de auditoria demonstrando que R$ 985,6 milhões tenham sido desviados. Passivo não é sinônimo de dinheiro roubado. Dívida não é automaticamente fraude. Prejuízo empresarial não significa necessariamente apropriação de recursos. Da mesma forma, a existência de uma operação malsucedida não elimina a possibilidade de que irregularidades sejam encontradas posteriormente.

É justamente para separar essas situações que existem auditoria, fiscalização, processos judiciais e órgãos reguladores.

Outro item precisa ser esclarecido porque passou a integrar o debate político. A Apex é uma empresa privada. Segundo manifestação oficial da Secretaria de Estado da Fazenda, não existem recursos do Tesouro Estadual nem do Fundo Soberano do Espírito Santo investidos na Apex Partners. A Sefaz informou ainda que as disponibilidades do Tesouro estão alocadas no Banestes, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.

Isso não encerra todas as perguntas possíveis sobre relações entre poder público e empresas pertencentes ao ecossistema da Apex. Contratos, operações ou relações comerciais eventualmente existentes podem e devem ser fiscalizados individualmente. Também cabe verificar eventual exposição de outras entidades públicas, caso existam elementos concretos que justifiquem essa investigação.

Mas é necessário estabelecer a diferença entre investigar uma relação objetiva e simplesmente explorar relações familiares, sociais ou políticas para produzir uma narrativa.

A presença de parentes de políticos entre acionistas, funcionários ou investidores não transforma automaticamente uma crise empresarial em escândalo governamental. Responsabilidade societária e administrativa precisa ser demonstrada. Participação acionária não significa necessariamente participação na gestão. Muito menos conhecimento prévio de todas as operações realizadas por uma organização com dezenas de sociedades e estruturas financeiras diferentes.

A investigação precisa seguir documentos, decisões, contratos e dinheiro.

A politização irresponsável produz outro problema que parece estar sendo ignorado: pode aumentar o prejuízo justamente de quem nada tem a ver com a disputa eleitoral.

Quando políticos tratam uma instituição financeira em dificuldade como se sua quebra fosse um troféu, atingem também investidores, credores, funcionários, fornecedores e empresas que mantêm relações legítimas com aquela estrutura.

O mercado financeiro depende fortemente de confiança. Um enredo lançado irresponsavelmente pode provocar pedidos de resgate, retração de investidores, dificuldade de financiamento e desvalorização de ativos antes mesmo que a situação patrimonial seja definitivamente conhecida.

Esse risco deixou de ser apenas teórico. O BRM Carbyne Crédito Estruturado enfrentou volume de pedidos de resgate incompatível com a liquidez da carteira, levando à suspensão dos saques. O fundo possuía patrimônio líquido de aproximadamente R$ 160,5 milhões.

Isso mostra por que responsabilidade na divulgação das informações não significa proteger a Apex. Significa proteger o mercado de conclusões que ainda não podem ser sustentadas.

Empresas investidas pela Apex também não podem ser automaticamente tratadas como participantes das irregularidades apontadas. Uma empresa pode receber investimento de um fundo, possuir a Apex como acionista ou utilizar serviços financeiros da plataforma sem participar das decisões que produziram o atual passivo.

Misturar tudo interessa à política. Não interessa aos investidores.

Também seria irresponsável diminuir a gravidade do problema para proteger empresários ou pessoas politicamente expostas. Quase R$ 1 bilhão em passivos preliminares exige respostas transparentes. Os responsáveis pela gestão precisam explicar como esse endividamento foi formado, quais operações o produziram, quais mecanismos de controle falharam e por que a dimensão do problema somente agora chegou aos demais sócios e ao conhecimento público.

A nova administração também precisa apresentar informações suficientes para que investidores e credores compreendam a situação real da companhia.

Fernando Cinelli, por sua vez, contesta a ideia de que as decisões tenham sido tomadas exclusivamente por ele e recorreu à Justiça buscando documentos internos de 12 empresas para sustentar que as operações passavam por comitês e equipes da organização. Essa versão também precisa ser confrontada com documentos e com o resultado da auditoria.

O contraditório vale para todos.

Se houve gestão temerária, seus responsáveis precisam responder.

Se houve fraude, que seja comprovada e os autores responsabilizados.

Se investidores foram enganados, precisam ser identificados os responsáveis e dimensionados os prejuízos.

Se dinheiro foi desviado, o caminho dos recursos precisa aparecer.

Se decisões foram tomadas coletivamente, também será necessário identificar quem participou delas.

E se determinadas pessoas estão sendo associadas ao episódio apenas por parentesco, amizade, sociedade minoritária ou conveniência eleitoral, isso igualmente precisa ficar claro.

A transparência interessa ao Espírito Santo. A exploração política precipitada, não.

A Apex tornou-se uma instituição relevante do mercado financeiro capixaba e ajudou a inserir o Estado em operações que antes estavam muito concentradas nos grandes centros financeiros do país. Justamente por essa importância, sua crise merece uma apuração ainda mais rigorosa.

O Espírito Santo não ganha com a destruição artificial de empresas privadas. Também não ganha escondendo problemas de empresas importantes.

Uma companhia particular que comete erros graves deve responder por eles. Seus administradores devem ser responsabilizados quando houver fundamento jurídico e probatório. Credores e investidores precisam receber todas as informações necessárias. Órgãos reguladores e a Justiça devem atuar com independência.

O papel da política é cobrar transparência quando houver interesse público concreto e fiscalizar qualquer relação existente com recursos públicos. O que ultrapassa essa função é utilizar uma crise privada para fabricar culpados antecipadamente e tentar transferir para adversários políticos responsabilidades que ainda não foram estabelecidas.

Likes não pagam credores. Disputa eleitoral não recupera investimentos. Exposição irresponsável pode, ao contrário, aumentar o prejuízo de pessoas que confiaram seu patrimônio a empresas e fundos relacionados ao grupo.

Neste momento, a pergunta responsável não é qual político pode tirar proveito da crise da Apex.

As perguntas são outras: o que aconteceu com a companhia, como se formaram quase R$ 1 bilhão em obrigações, quais operações produziram as perdas, quem tomou as decisões, quais investidores estão efetivamente expostos, quais empresas possuem risco real e quem deverá pagar pelo que for comprovado.

As explicações precisam vir da auditoria. Antes dela, transformar suspeitas em certezas é precipitação ou oportunismo político.

Fonte: Ag. Brasil