Bairros inexistentes, metodologia inconsistente e amostra obscura: as duas últimas pesquisas do Veritá voltam a desafiar a fiscalização no ES

Duas pesquisas realizadas pelo Instituto Veritá em semanas consecutivas no Espírito Santo apresentam erros territoriais, inconsistências na composição da amostra e falta de informações essenciais para uma auditoria independente. Os problemas aparecem nos levantamentos ES-01361/2026 e ES-00353/2026, registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A primeira pesquisa ouviu 1.220 eleitores entre os dias 5 e 10 de setembro. A segunda entrevistou o mesmo número de pessoas entre os dias 12 e 17. As duas foram financiadas com recursos próprios do instituto e tiveram exatamente o mesmo custo declarado, de R$ 93.940,00 cada. Juntas, representam R$ 187.880,00 em despesas informadas pelo Veritá. Algo bastante incomum. O que poderia ter levado a empresa a jogar outros R$ 93 mil no lixo pouquíssimos dias depois? Esse assunto será revelado em um artigo de desdobramento neste domingo (20).

Nas duas rodadas, bairros foram vinculados a municípios diferentes daqueles aos quais pertencem, Vitória recebeu mais entrevistas que cidades com eleitorado superior e os números brutos da coleta foram apresentados junto com os dados ponderados, impedindo a identificação dos ajustes estatísticos realizados.

Também se repetiram a fusão das faixas de renda e escolaridade, o cálculo da margem de erro por um modelo diferente do desenho amostral declarado, a ausência da origem da base telefônica e a falta de informações sobre os pesos utilizados para corrigir as diferenças territoriais.

Municípios e bairros foram misturados nas duas pesquisas

O problema mais evidente está na relação das cidades e dos bairros onde as entrevistas teriam sido realizadas. Os documentos apresentam colunas separadas para município e bairro. O questionário também pergunta separadamente em qual cidade e em qual bairro o eleitor reside.

Apesar disso, as duas pesquisas atribuem bairros a cidades erradas e apresentam municípios como se fossem bairros de outros municípios.

Os erros encontrados se estendem a outros municípios e ampliam os questionamentos sobre a consistência científica da amostra e seus possíveis reflexos nos resultados

Vitória liderou a amostra nas duas rodadas

Vitória recebeu a maior quantidade de entrevistas nos dois levantamentos, apesar de possuir eleitorado inferior ao da Serra, de Vila Velha e de Cariacica.

Na ES-01361/2026, Vitória concentrou 134 questionários. Vila Velha recebeu 111, a Serra teve 106 e Cariacica ficou com 95.

Na ES-00353/2026, a capital subiu para 140 entrevistas. A Serra passou para 132, Vila Velha chegou a 130 e Cariacica recebeu 104.

Vitória representa aproximadamente 8,9% do eleitorado capixaba. Na primeira pesquisa, concentrou 10,98% dos entrevistados. Na segunda, sua participação subiu para 11,48%.

A Serra, maior colégio eleitoral do Estado, representa aproximadamente 12,08% dos votantes. Mesmo assim, ficou com 8,69% da primeira amostra e 10,82% da segunda.

Na ES-00353/2026, Vitória teve 5,26 entrevistas para cada grupo de 10 mil eleitores. A Serra registrou 3,65, Vila Velha ficou com 3,74 e Cariacica teve 3,79. A representação amostral da capital ficou cerca de 44% acima da observada na Serra.

A discrepância na distribuição da amostra concede ao quarto maior colégio eleitoral mais entrevistas do que ao primeiro em número de eleitores

Uma pesquisa por conglomerados não precisa distribuir as entrevistas de maneira rigorosamente proporcional entre todos os municípios. Essa diferença exige, porém, a apresentação das probabilidades de seleção e dos pesos territoriais utilizados para impedir que moradores de determinadas cidades exerçam influência estatística superior à de outros eleitores.

Os registros não apresentam a memória de cálculo da distribuição municipal nem os fatores empregados para compensar essas diferenças.

Viana perdeu 49 entrevistas de uma semana para outra

Embora as duas pesquisas tenham mantido exatamente 1.220 entrevistados e os mesmos totais por macrorregião, a distribuição dentro de cada região mudou de forma acentuada.

Viana recebeu 62 entrevistas na ES-01361/2026. Esse número correspondia a 5,08% da amostra, embora o município possua aproximadamente 1,82% do eleitorado estadual. Em uma divisão diretamente proporcional, Viana teria cerca de 22 questionários.

Na rodada seguinte, o município caiu de 62 para 13 entrevistas. Foram retirados 49 questionários, uma redução de aproximadamente 79%.

A Serra passou de 106 para 132 entrevistas. Cachoeiro de Itapemirim subiu de 64 para 89. Vila Velha foi de 111 para 130. Vitória passou de 134 para 140.

No movimento contrário, Itapemirim caiu de 21 para três entrevistas. Afonso Cláudio também passou de 20 para três. São Mateus recuou de 56 para 43.

As alterações ocorreram enquanto as quantidades destinadas às macrorregiões permaneceram rigorosamente iguais. Nas duas pesquisas, a região Central recebeu 690 entrevistas, o Litoral Norte teve 196, o Noroeste ficou com 142 e o Sul recebeu 192.

Os números demonstram que o Veritá manteve controle exato das cotas regionais, mas promoveu uma redistribuição intensa entre os municípios integrantes de cada região.

Essa mudança pode alterar o perfil político, econômico e social da amostra. Viana, Serra, Vila Velha, Cachoeiro de Itapemirim, Itapemirim e Afonso Cláudio possuem históricos eleitorais, níveis de renda e características populacionais diferentes.

Não há demonstração estatística que justifique a alteração do número de questionários em cada município.

Amostra bruta desaparece atrás da ponderação

Outro problema repetido está na apresentação da composição demográfica. As duas pesquisas dividem os entrevistados em 24 combinações de sexo, idade, escolaridade e renda. Em todas as células, os números apresentados como realizados ou ponderados são exatamente iguais aos planejados. O mesmo quadro, com os mesmos totais, aparece nos dois levantamentos.

A planilha utiliza uma coluna conjunta denominada realizado/ponderação. A apresentação mistura duas informações diferentes.

A amostra realizada corresponde às entrevistas efetivamente coletadas. A amostra ponderada representa o resultado depois da aplicação dos fatores estatísticos destinados a ajustar diferenças entre os respondentes e os parâmetros populacionais.

Ao reunir os dois conceitos, o instituto impede que o público saiba quantas pessoas de cada perfil foram realmente entrevistadas e quais grupos tiveram seu peso ampliado ou reduzido.

O plano informa que o fator inicial de ponderação seria igual a um e poderia ser recalculado diante de diferenças relevantes. Os documentos não informam se houve recálculo, quais foram os pesos mínimos e máximos, quantas entrevistas foram corrigidas ou qual ficou sendo o tamanho efetivo da amostra. A planilha deveria separar a coleta bruta do resultado ajustado.

Categorias de renda e escolaridade foram fundidas

As duas pesquisas repetem divergências na classificação da renda familiar. O plano amostral trabalha com três grupos: até dois salários mínimos, de dois a cinco salários mínimos e acima de cinco salários mínimos. Os percentuais planejados são, respectivamente, 42,5%, 38,3% e 19,2%.

Na composição final, as duas primeiras faixas foram reunidas em uma única categoria, denominada até cinco salários mínimos, com 80,8%.

A soma está correta, mas a fusão impede verificar se as cotas de 42,5% e 38,3% foram cumpridas separadamente.

O questionário utiliza ainda uma redação diferente. A primeira opção registra renda abaixo de dois salários mínimos, enquanto o plano utiliza até dois salários mínimos. Uma definição exclui quem recebe exatamente dois salários, enquanto a outra inclui.

A escolaridade passa pelo mesmo processo. O planejamento divide os entrevistados entre ensino fundamental ou menos, ensino médio e ensino superior. O quadro final reúne ensino fundamental e médio em uma única categoria, denominada até ensino médio completo.

A consolidação impede conferir as cotas nas mesmas categorias utilizadas no planejamento e na coleta.

Também existe divergência na faixa etária. O plano amostral e o questionário utilizam 55 anos ou mais. A composição final registra acima de 55 anos. O instituto não esclarece onde foram classificados os entrevistados com exatamente 55 anos.

As distorções nas variáveis impedem uma auditoria externa completa e ampliam o risco de resultados divergentes da realidade eleitoral

Margem de erro foi calculada por modelo mais simples

O Veritá informa margem máxima aproximada de três pontos percentuais e nível de confiança de 95% nas duas pesquisas.

O próprio registro declara que o cálculo foi realizado conforme o modelo de amostragem aleatória simples. O método efetivamente descrito, entretanto, possui uma estrutura mais complexa.

A arquitetura combina estratificação por macrorregiões, seleção de municípios em múltiplos estágios, Probabilidade Proporcional ao Tamanho, cotas demográficas, entrevistas telefônicas e eventual ponderação.

A concentração de questionários em alguns municípios e a seleção por conglomerados podem aumentar a variância das estimativas. A aplicação de contrabalanço também pode reduzir o tamanho estatisticamente efetivo da amostra.

Os três pontos percentuais correspondem à margem teórica de uma amostra aleatória simples com 1.220 entrevistas. Os documentos não demonstram que essa precisão foi mantida depois da distribuição territorial e dos possíveis ajustes estatísticos.

Base telefônica e fiscalização permanecem sem detalhamento

As entrevistas foram realizadas por telefone celular, por meio de uma unidade automatizada de respostas audíveis.

Os dois registros deixam de informar a origem dos números telefônicos. Não existe explicação sobre geração aleatória, aquisição de cadastros, utilização de fornecedores ou outro método de seleção.

Os documentos não explicam como foram tratados os eleitores com múltiplas linhas e telefones corporativos.

O Veritá informa que aproximadamente 20% das entrevistas passaram por fiscalização, conferência e checagem. Isso representaria cerca de 244 questionários em cada levantamento.

O instituto não informa como esse grupo foi escolhido, quem realizou a conferência, quantas entrevistas foram invalidadas nem quais itens foram verificados. Também não esclarece se a auditoria confirmou os municípios e bairros transcritos pela inteligência artificial.

A permanência de localidades vinculadas a cidades erradas nas duas rodadas coloca em dúvida a eficácia da revisão territorial realizada antes da apresentação dos documentos.

Erros de escrita e duplicidades revelam falta de revisão básica

As falhas territoriais são acompanhadas por nomes incompreensíveis, palavras truncadas e localidades repetidas com grafias diferentes.

Na ES-01361/2026, aparecem registros como “ILMENITAMARATAIZESES”, “POR GRANDE”, “IA DO PRINCIPE”, “BOA FI”, “RIRI”, “JOACMA”, “LGA FUNDA”, “PR DO SUA”, “IRM OS FERNANDES” e “SAO R TERRA ROXA”. Parte dessas expressões aparenta ter sido cortada, fundida ou transcrita de maneira incorreta.

A mesma base apresenta uma única localidade registrada mais de uma vez com grafias diferentes. Em Castelo, surgem “Santo Andresinho”, “Santo Andrezinho” e “ST Andrezinho”. Em Baixo Guandu, aparecem “Val Paraíso” e “Valparaíso”. Santa Maria de Jetibá possui “São Luiz” e “São Luis”. Em Ibatiba, a planilha registra “Zona Rual” e “Zona Rural”.

Cada pesquisa teve um custo declarado de R$ 93.940,00 e não poderia apresentar como detalhe uma relação territorial repleta de palavras mutiladas, grafias duplicadas e localidades atribuídas a municípios errados. A conferência dos nomes representa uma etapa elementar do controle de qualidade, especialmente quando o próprio instituto informa que aproximadamente 20% das entrevistas passaram por fiscalização e checagem. Se nem sequer o plano amostral, registrado havia vários dias e ainda passível de correção, foi submetido a uma revisão interna capaz de identificar erros tão grotescos, o que garante que o sistema de verificação alcançou adequadamente o percentual mínimo de 20% das respostas do eleitor?

Quando duas pesquisas consecutivas repetem os mesmos problemas, a situação deixa de ser uma divergência pontual. Forma-se um padrão documental que exige esclarecimento técnico e fiscalização eleitoral.

Fonte: Ag. Brasil